👉 O curso “Dilemas na Ciência Cidadã” reforça o papel da RBCC em estimular a reflexão crítica sobre os rumos da ciência cidadã no Brasil, apontando caminhos para que a prática seja cada vez mais inclusiva, ética e socialmente relevante. As aulas do curso podem ser assistidas em Curso Dilemas na Ciência Cidadã - YouTube.
👉 A partir dos diálogos promovidos pelos ministrantes e participantes do curso “Dilemas na Ciência Cidadã”, foi elaborado um documento de reflexões sobre os marcos e princípios orientadores da atuação da RBCC, o qual pode ser acessado na íntegra em https://doi.org/10.5281/zenodo.17160833.
Entrevista conduzida por RBCC
“Quais os principais dilemas da pesquisa e da prática em ciência cidadã?”. Essa foi uma das perguntas centrais que guiaram o curso de extensão “Dilemas na Ciência Cidadã”, promovido pela UFABC em parceria com a Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC) e com apoio do Instituto Nacional da Ciência Cidadã (INCC). O curso foi organizado pelo Prof. Dr. Pedro Bravo, que conversou com nossa equipe sobre os principais desafios e reflexões trazidos pelas aulas.
Um espaço para refletir sobre práticas e princípios
Segundo o professor Pedro Bravo, o objetivo do curso foi promover uma cultura de boas práticas na ciência cidadã brasileira e identificar situações éticas e epistemológicas problemáticas que podem emergir em projetos desse campo.
“Não se trata apenas de coletar dados com a ajuda de cidadãos. A ciência cidadã envolve escolhas éticas, epistemológicas e sociais que precisam ser constantemente debatidas”, afirmou.
O curso contou com palestrantes de diferentes instituições do país — como Arthur Amaral (SEDUC-GO), Charbel El-Hani (UFBA), Milena Oliveira (UFMG), Sarita Albagli (Ibict-UFRJ), entre outros — e foi enriquecido com a participação ativa dos alunos e do Comitê Gestor da RBCC.
Discriminação e injustiça epistêmica
Um dos dilemas discutidos foi o risco de reprodução de desigualdades sociais dentro da própria pesquisa. Bravo destaca que é preciso analisar se a formulação de problemas não naturaliza exclusões de gênero, raça ou cultura.
“Devemos estar atentos para não reproduzir preconceitos e, sobretudo, para evitar a chamada injustiça epistêmica — quando alguém é inferiorizado enquanto produtor de conhecimento por causa de preconceitos de identidade”, explica.
Evitar a ciência cidadã predatória
Outro ponto de destaque foi a crítica à chamada “ciência cidadã predatória”, em que voluntários são tratados apenas como mão de obra gratuita, sem retorno em termos de aprendizado, reconhecimento ou benefícios sociais.
“A ciência cidadã deve ser construída em colaboração genuína, valorizando também o conhecimento local e tradicional. Caso contrário, corre-se o risco de explorar os participantes”, alerta Bravo.
Conflitos de interesse e financiamento
O curso também tratou da influência de interesses financeiros e institucionais sobre projetos. Para o professor, é preciso reconhecer que valores sempre atravessam a prática científica, mas que isso nem sempre compromete sua objetividade.
“Especialmente quando o financiamento vem de setores ligados a impactos socioambientais prévios, precisamos nos perguntar: será que a pesquisa não está suavizando responsabilidades, direcionando a coleta de evidências para longe de elementos problemáticos ou exagerando inapropriadamente os resultados atingidos? A transparência é essencial, mas às vezes não basta: pode ser preciso recusar certos financiamentos, principalmente nos casos em que há controle da publicação dos resultados”, afirma.
Dados abertos com responsabilidade
Outro dilema recorrente é o da abertura dos dados. Para Bravo, a disponibilização deve equilibrar princípios de acesso livre (FAIR) e de responsabilidade ética (CARE), principalmente quando envolve comunidades tradicionais ou espécies ameaçadas.
“Não se trata de abrir dados de qualquer jeito. É fundamental pensar na segurança, na privacidade e nas consequências éticas do compartilhamento conforme as especificidades de cada projeto”, reforça.
Reconhecimento dos cientistas cidadãos
Por fim, o curso destacou a importância de garantir reconhecimento justo à participação dos cientistas cidadãos, seja em publicações, agradecimentos ou coautoria.
“Se o cidadão contribuiu de forma significativa para o projeto, deve ter a oportunidade de figurar como coautor. Esse reconhecimento é parte do compromisso ético da ciência cidadã”, conclui Bravo.