São Paulo, 20 de março de 2026, por Pedro Bravo, Karen Sailer, Julianna Arita, Luan de Melo, Luca Schirru e Natalia Pirani Ghilardi-Lopes

 

No início de março de 2026, pesquisadores da Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC) e do Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC) marcaram presença na 6ª edição da Conferência da Associação Europeia de Ciência Cidadã (ECSA), realizada entre os dias 3 e 6 de março em Oulu, na Finlândia. Um dos mais relevantes fóruns globais dedicados à democratização da ciência e à participação pública na pesquisa, o evento reuniu centenas de pesquisadores e praticantes da ciência cidadã de diferentes partes do mundo. O tema desta edição foi “Citizen Science bridging Centre and Periphery” (Ciência cidadã: uma ponte entre o centro e a periferia) e propôs explorar a diversidade de contextos em que a ciência cidadã se desenvolve e seu potencial como elo entre centros de poder científico e suas periferias geográficas, culturais, sociais e institucionais. Uma aspiração que, como os debates ao longo dos quatro dias de evento deixaram evidente, é também um campo de tensão ainda em aberto.

A participação brasileira foi expressiva. Foram apresentados cinco pôsteres e uma comunicação oral, com temáticas que abrangem desde práticas locais de engajamento social e divulgação científica até o fortalecimento institucional, a capacitação teórica em ciência cidadã e os desafios jurídicos emergentes:

 

Na sessão de pôsteres, os trabalhos brasileiros geraram conversas contínuas ao longo de toda a apresentação, com particular interesse dos visitantes pela seção dedicada aos desafios enfrentados pela ciência cidadã no contexto brasileiro, especialmente as tensões entre o modelo participativo proposto internacionalmente e as condições estruturais, políticas e culturais da América Latina.

O que foi debatido — e o que ficou ressoando

Mais do que um catálogo de projetos, a ECSA 2026 ofereceu um espaço para tensionamentos importantes sobre os rumos globais da ciência cidadã. Um dos embates centrais girou em torno dos Princípios da ECSA, documento que orienta práticas de ciência cidadã e tem sido traduzido e adotado por associações em múltiplos países, inclusive pela RBCC. Uma doutoranda de Uganda apresentou pesquisa crítica sobre a aplicabilidade desses princípios em contextos do Sul Global, apontando que alguns deles partem de premissas individualistas e de condições de infraestrutura, alfabetização e tempo que nem sempre estão presentes em outros contextos. A discussão evidenciou que ao menos parte do documento foi concebida com a realidade europeia como referência implícita,algo reconhecido, inclusive, por pesquisadoras que participaram de sua elaboração original. 

O desdobramento dessa discussão foi a abertura de um grupo de trabalho da ECSA para revisão dos princípios, com convite à participação de pesquisadores de fora da Europa.

Esse debate articulou-se com uma mesa dedicada à decolonialidade na ciência cidadã, em que foram retomadas iniciativas latino-americanas e africanas que operam a partir de outras lógicas e limitações, e que, justamente por isso, frequentemente chegam a soluções e perguntas distintas. A Carta de Manaus sobre monitoramento participativo foi citada como exemplo de produção de conhecimento situada, gerada a partir de demandas concretas do Sul Global. Esses momentos dialogaram diretamente com o tema central do evento: a distância entre centro e periferia não é apenas geográfica, mas epistemológica;  e reduzi-la exige mais do que incluir vozes do Sul Global como convidadas, mas reconhecê-las como produtoras legítimas de conhecimento e de metodologia.

Outro aspecto que chamou atenção foi a forma como a América Latina, e o Brasil em particular, dado o peso simbólico da Amazônia, foi percebida por parte dos participantes. Em alguns momentos, o interesse pelo contexto brasileiro assumiu um caráter exotizante, como se a região fosse, antes de um produtor de conhecimento, um objeto de intervenção. Essa percepção, compartilhada por pesquisadores latino-americanos e africanos presentes, aponta para uma assimetria ainda presente nas relações entre centros e periferias da ciência global e coloca para a RBCC uma questão relevante: como se posicionar nesse cenário de forma a afirmar sua expertise e contribuir para a reconfiguração dessas relações?

No plano mais prático, o intercâmbio revelou que certas dificuldades transcendem fronteiras: questões relacionadas à qualidade de dados, à governança e à manutenção do engajamento persistem tanto no Brasil quanto na Europa. A heterogeneidade cultural, de ambos os lados, torna necessário adaptar estratégias de engajamento a contextos específicos, o que reforça a importância de fóruns como o ECSA para o avanço coletivo do campo.

Durante a conferência, diferentes iniciativas sinalizaram possíveis rumos estratégicos para o fortalecimento e a consolidação da ciência cidadã no contexto europeu. Entre os destaques esteve o workshop dedicado à avaliação do Citizen Science Competency Framework (CitSciComp), que buscou discutir e refinar a definição de competências consideradas essenciais para pesquisadores, gestores e demais atores envolvidos em projetos participativos, evidenciando uma tendência de maior profissionalização e sistematização formativa no campo. Paralelamente, diversos momentos do evento enfatizaram o avanço das discussões sobre a criação de uma infraestrutura pan-europeia de ciência cidadã, com destaque para a iniciativa RIECS-Concept, voltada à integração de recursos, plataformas digitais, instrumentos comunitários e modelos de governança capazes de reduzir a fragmentação institucional e técnica atualmente existente. Em conjunto, essas propostas contribuem para ampliar o debate europeu ao reforçar a importância de temas como capacitação, interoperabilidade de dados, governança participativa e sustentabilidade de longo prazo, considerados elementos centrais para o fortalecimento da credibilidade científica e do impacto social das práticas de produção colaborativa do conhecimento.

Projetos e iniciativas em destaque

A conferência apresentou uma variedade rica de projetos. A tabela abaixo reúne os destaques organizados por área temática:

Projeto

Área

Descrição

Link

Tell Us About Accidental Injuries

Saúde

Plataforma de engajamento de pacientes para relato de lesões acidentais

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SelEe

Saúde

Aplica abordagem de ciência cidadã à pesquisa sobre doenças raras

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Voluntarios por el Agua

Meio ambiente

Monitoramento participativo da água no Chile

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GreenInCities

Meio ambiente

Ciência cidadã aplicada à infraestrutura verde urbana

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Flow

Meio ambiente

Monitoramento participativo de água doce

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FunDive

Meio ambiente / Biodiversidade

Mapeamento participativo da diversidade fúngica para conservação

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OdourCollect

Ambiente urbano

Monitoramento coletivo de odores urbanos

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ScienceUS

Infraestrutura

Rede europeia de projetos interconectados de ciência cidadã

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More4Nature

Meio ambiente

Contribuições da ciência cidadã para políticas ambientais

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CREDO Detector

Física / Astrofísica

Usa celulares como detectores de raios cósmicos

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MICS

Avaliação de impacto

Plataforma para avaliação de impacto de projetos de ciência cidadã

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Waag Futurelab

Arte e ciência

Iniciativas na interface entre arte, tecnologia e ciência cidadã

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Anchor Points

Saúde / Inovação rural

Inovação criativa para pessoas com Alzheimer no noroeste austríaco

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Engajamundo

Participação / Brasil

Plataforma brasileira de engajamento cidadão em políticas globais

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EUGREEN BioUNIVERSITY

Biodiversidade / Ensino superior

Rede de universidades europeias com projeto guarda-chuva no iNaturalist

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EU Citizen Science Academy

Formação

Plataforma aberta de recursos educacionais em ciência cidadã

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RIECS

Infraestrutura

Proposta de infraestrutura pan-europeia de ciência cidadã

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Jogo Google Earth Engine

Educação

Jogo educativo baseado no Google Earth Engine

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Por fim, seguem algumas publicações que circularam nos debates

–  Bærøe et al. (2022). Pursuing impact in research: towards an ethical approach. BMC Medical Ethics, 23(1), 37.

–  Benyei et al. (2023). Challenges, Strategies, and Impacts of Doing Citizen Science with Marginalised and Indigenous Communities. Citizen Science: Theory and Practice, 8(1).

–  Fraisl et al. (2020). Mapping citizen science contributions to the UN Sustainable Development Goals. Sustainability Science, 15(6), 1735–1751.

–  Groom, Weatherdon & Geijzendorffer (2017). Is citizen science an open science in the case of biodiversity observations? Journal of Applied Ecology, 54(2), 612–617.

–  Hofer & Kaufmann (2023). Actors, arenas and aims: A conceptual framework for public participation. Planning Theory, 22(4), 357–379.

–  Montanari & Haklay (2023). European Citizen Science: D4.1 Blueprint for the European Citizen Science Academy. https://doi.org/10.5281/zenodo.10521787

–  Ozolinčiūtė et al. (2022). Guidelines for Research Ethics and Research Integrity in Citizen Science. Research Ideas and Outcomes, 8, e97122.

–  Pocock et al. (2019). Developing the global potential of citizen science. Journal of Applied Ecology, 56(2), 274–281.

–  Poetz & Sauermann (2024). How And When To Involve Crowds In Scientific Research. Edward Elgar Publishing. https://www.sciencewithcrowds.org/

–  White Paper on Citizen Science (2014). Comissão Europeia. https://ec.europa.eu/futurium/en/system/files/ged/socientize_white_paper_on_citizen_science.pdf

 

Como síntese da participação brasileira na ECSA 2026, o encontro em Oulu reforçou tanto o potencial quanto os desafios que atravessam o campo da ciência cidadã em escala global. Para a Rede Brasileira de Ciência Cidadã e o Instituto Nacional de Ciência Cidadã, a experiência evidenciou a importância de ampliar diálogos internacionais sem perder de vista as especificidades sociais, políticas e culturais que moldam as práticas no Sul Global.