
A publicação da Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) 2024–2034 representa um marco para a Ciência Cidadã e a Ciência Aberta no Brasil. Pela primeira vez, ambos os temas aparecem de forma explícita no principal documento de planejamento estratégico da política nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), que orientará as prioridades, programas e investimentos do setor ao longo da próxima década.
A ENCTI é o instrumento que estabelece as diretrizes de longo prazo para o fortalecimento do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCTI), definindo os grandes desafios nacionais, áreas prioritárias e orientações para a atuação do Estado brasileiro em CT&I. Sua elaboração resultou de um amplo processo participativo que incluiu a realização da 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (5ª CNCTI), após quatorze anos sem conferências nacionais, além de consultas públicas e diálogos com diferentes segmentos da sociedade.
A Ciência Aberta e a Ciência Cidadã já haviam conquistado espaço nos debates da 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (5ª CNCTI), especialmente nos documentos que consolidaram suas discussões e recomendações, como o Livro Lilás – Relatório Geral da 5ª CNCTI e o Livro Violeta – Ciência, Tecnologia e Inovação para um Brasil justo, sustentável e desenvolvido. Esses documentos refletiram anos de trabalho de instituições, redes e comunidades que vêm promovendo a abertura do conhecimento científico, a participação social na ciência e a democratização dos processos de produção do conhecimento.
A consulta pública, entretanto, desempenhou um papel decisivo para ampliar e qualificar essa presença na nova ENCTI. Realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, ela recebeu 863 comentários de diferentes setores do Sistema Nacional de CT&I. Entre eles, 193 contribuições abordaram temas relacionados à Ciência Aberta, incluindo 55 de propostas voltadas à Ciência Cidadã. Atendendo ao chamado da RBCC, a comunidade participou ativamente desse processo, defendendo o fortalecimento da Ciência Cidadã e da Ciência Aberta como componentes estratégicos da política científica nacional. O documento produzido pela RBCC recebeu 23 manifestações formais de apoio na plataforma Brasil Participativo, evidenciando a mobilização da comunidade em torno dessa agenda.
Os resultados desse esforço coletivo podem ser observados no texto final da ENCTI. No caso da Ciência Aberta, a consulta pública contribuiu para ampliar significativamente seu destaque no documento. Além de fortalecer sua presença ao longo da Estratégia, o texto final passa a recomendar explicitamente a promoção da Ciência Aberta no âmbito do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCTI).
No caso da Ciência Cidadã, o principal avanço foi de natureza qualitativa. As referências ao tema tornaram-se mais consistentes e alinhadas às concepções defendidas pela comunidade brasileira. O texto final associa a Ciência Cidadã a valores como participação social, valorização dos saberes locais, produção colaborativa do conhecimento, inclusão de diferentes atores sociais e fortalecimento das relações entre ciência e sociedade. Além disso, a Estratégia passa a reconhecer a Ciência Cidadã como uma abordagem transversal para o fortalecimento da CT&I, recomendando a expansão de políticas voltadas à participação social na produção, interpretação e uso do conhecimento, de modo a integrar saberes locais, práticas comunitárias e tecnologias sociais. A ENCTI também destaca a importância de fortalecer redes colaborativas de inovação social, tecnologia social e Ciência Cidadã como estratégias para o desenvolvimento sustentável e a inclusão produtiva.
Outro avanço é a definição de Ciência Cidadã incluída no glossário da Estratégia, que passou a dialogar de forma mais direta com a concepção adotada pela Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC).
A inclusão desses temas na ENCTI possui implicações que vão muito além do reconhecimento simbólico. A partir de agora, Ciência Cidadã e Ciência Aberta passam a integrar formalmente um documento estratégico de Estado. Isso fortalece a capacidade de incidência da comunidade junto a ministérios, agências de fomento, fundações de amparo à pesquisa, universidades e demais atores do Sistema Nacional de CT&I.
Na prática, a nova Estratégia cria condições mais favoráveis para a defesa de programas específicos, linhas de financiamento, ações de formação e capacitação, mecanismos de reconhecimento institucional e iniciativas voltadas à ampliação da participação pública na ciência e à abertura do conhecimento científico. Contudo, esses avanços não ocorrerão de forma automática. A incorporação da Ciência Cidadã à ENCTI constitui uma oportunidade política que precisará ser mobilizada pela própria comunidade. Cabe agora à toda a comunidade que faz parte da RBCC e aos demais atores envolvidos utilizar esse reconhecimento para fortalecer sua articulação institucional e ampliar o diálogo com o poder público em defesa de políticas, programas e instrumentos concretos de apoio à Ciência Cidadã.
A todos que participaram da consulta pública, enviaram contribuições, compartilharam documentos, mobilizaram colegas e defenderam a presença desses temas na Estratégia Nacional, a RBCC registra seu agradecimento. O desafio agora é transformar esse reconhecimento em ações concretas, fortalecendo a Ciência Cidadã e a Ciência Aberta como componentes permanentes da política científica brasileira.